Análise Técnica por Fausto de Arruda Botelho
 

São Paulo, 22 de Março de 2004
Bovespa - Vem aí uma correção mais acentuada
Por Fausto de Arruda Botelho
Roprodução permitida desde que integral.
 
O Índice bovespa deverá sofrer uma correção mais acentuada a partir de agora, devendo chegar aos 14.500 (*)  pontos nos próximos meses, vejamos porque.
Para entender o comportamento atual do mercado, é muito útil ter à mão o histórico de longo prazo deste ativo. Para tal iremos analisar um gráfico diário, indexado em dolar comercial e em escala logarítmica. No gráfico abaixo os preços são retratados desde 1990 e mostram:
Gráfico 1
(*) - Nota do autor: Devido ao fato de que o gráfico mencionado é corrigido pelo Dólar Comercial, o valor de 14.500 da previsão acima refere-se às cotações de hoje dessa moeda. Caso o Dólar suba, esse valor irá subir e vice versa. A curva do gráfico acima entretanto ficará inalterada mudando apenas os valores da escala. Para uma melhor compreensão, note por exemplo, o fundo (valor mínimo) de 16 de outubro de 2002 que está hoje a 6.088. Esse é seu valor real pois seu valor nominal (aquele que foi publicados no jornal em 17 de outubro de 2002) de 8.224, quando a elaboração do gráfico, foi dividido pelo Dólar do dia 16/10/2002 (3,92) e multiplicado pelo fechamento do Dólar comercial de hoje ou do último pregão que foi sexta feira passada (2,902). O valor abaixou dos 8.224 nominais para os 6.088 reais (trazido a valor presente pelo Dólar), porque dividimos essa cotação do Índice Bovespa do passado, por um valor maior (3,92) e multiplicamos por um valor menor  (2,902).
 
A primeira análise importante que podemos fazer no gráfico 1 diz respeito à atual tendência de alta (iniciada em outubro de 2002).
 
Será ela o início de um novo período de alta como o que tivemos de 1991 a 1997 ou será apenas uma reação da tendência de baixa iniciada em 1997?
Apesar de que a reta de resistência (em preto) que passa nos topos de 1997, 2000 e 2004 do gráfico 1, ainda não foi rompida, temos uma análise bastante convincente de que os preços escaparam da tendência de baixa iniciada em 1997 que é o fato de que os preços corrigiram bem mais do que o esperado para uma correção (de 38 a 62%) do total da baixa. Para constatar esses valores oriundos da série de números fibonacci estão marcadas no gráfico 1 linhas horizontais verdes que mostram os percentuais de retração de 38, 50 e 62% de retração da tendência de baixa. Constata-se facilmente que se fosse um reação da tendência de baixa, a alta deveria ter parado no primeiro (38%), no segundo (50%) ou no terceiro (62%) fatores de correção fibonacci em relação à amplitude da alta, o que não aconteceu e nos leva a crer que a tendência iniciada em outubro de 2002 é uma nova tendência de alta e não, apenas uma reação da velha tendência de baixa.
Bom para o Brasil!
 
Muito bem, até onde irá essa tendência? 
Um analista técnico tem todo o direito de imaginar que essa tendência poderá ser aproximadamente igual em amplitude à tendência que precedeu (91-97) mas vamos colocar os pés no chão e nos ater ao futuro mais próximo.
A tendência iniciada em 2002 já tem uma amplitude comparável àquela dos movimentos de alta da tendência 92-97 e portanto podemos começar a imaginar que ela pode ter terminado.
Outro aspecto que leva a essa conclusão é a constatação de que a tendência de 2002 já teve 3 movimentos de alta.
 
A esse respeito, vamos voltar para os primórdios da análise técnica e os conceitos de Charles Dow e R.N. Elliott, dois baluartes da Análise Técnica. Ambos concordam e o autor também, que um movimento principal de alta tem geralmente 3 movimentos impulsivos (no sentido da tendência) entremeados por dois movimentos corretivos. São as ondas 1 a 5 de Elliott. Já os movimentos principais de baixa são compostos de dois movimentos para baixo entremeado por um movimento para cima, são as ondas A, B e C de Elliott.
Veja como esses movimentos ou ondas ocorreram de maneira totalmente ortodoxa na grande tendência de alta de 1991 a 1997 e na tendência de baixa de 97 a 2002, no gráfico 2.
 
Gráfico 2
 
Já o gráfico 3 abaixo que ilustra apenas a tendência de alta de 2002 mostra que os preços já fizeram 3 movimentos de alta (ondas 1 a 5) exatamente como se poderia esperar que fizessem. Os dois primeiros movimentos de alta (ondas 1 e 3) que ocorreram na expectativa da melhora da economia foram de amplitude (variação % por se tratar de escala logarítmica) quase idêntica enquanto que o terceiro movimento (onda 5) que ocorreu depois da conhecida melhora da economia, com os juros já caindo e a mídia "dando uma forcinha" para a alta, foi de amplitude consideravelmente maior que os dois primeiros, exatamente como costuma acontecer nas tendências.
Não se pode afirmar que não haverá mais um movimento de alta mas o fato de já terem ocorrido 3 movimentos de alta, permite ao analista técnico que ele procure por indícios de reversão da atual tendência que é exatamente o que tenho feito desde que o topo de janeiro foi se delineando.
O fato é que 3 movimentos de alta são mais do que suficientes para tirar o mercado de uma situação de sub valorização para uma situação de super valorização ainda que momentânea, que passa a requerer pelo menos uma correção para um valor mais baixo antes que os preços voltem a subir, como acho que vai ocorrer com o Bovespa após essa queda que acho que está se iniciando.
 
Gráfico 3
 
No gráfico 4 podemos perceber várias evidências de que a atual tendência está se revertendo.
Em primeiro lugar tivemos fundos consecutivamente mais baixos o que coloca os preços numa tendência de baixa ainda que de curto prazo. Note-se que em momento nenhum da tendência, desde 2002, tivemos uma situação comparável a essa, que nos mostra que a força de compra, os Touros, estão perdendo a força.
Após o topo de janeiro, os preços se acumulam numa formação que tem características de retângulo e que costuma dar continuidade ao movimento que a precedeu (movimento de baixa do topo até o suporte a 21.000) e portanto deverá resultar na quebra do suporte aos 21.000 com os preços caindo rapidamente para o objetivo do retângulo a 18.500, exatamente onde houve uma acumulação na alta entre outubro e novembro de 2003 que mostrou ser um triângulo ascendente.
Ao analisar o retângulo pode-se observar que as quedas são muito mais fortes do que as altas dentro dessa formação que confirma a perda de força ou exaustão dos comprados e mostra também o aumento da força dos vendidos.
Finalmente temos a acumulação dos últimos 8 dias que tem características de bandeira de baixa que significa apenas a ação de uma força artificial de compra segurando os preços. A força é artificial pois é composta por indivíduos que compram, não necessariamente por acreditarem que vai subir, mas apenas porque caiu muito. Assim que é sanada a necessidade desses "caçadores de barganhas" ou adivinhadores de fundo, a pressão de venda principal deverá ser retomada com o rompimento da bandeira para baixo e os preços possivelmente rompendo o importante suporte a 21.000.
Gráfico 4
 
 
A última pergunta que se pode fazer é até onde irão os preços se a tendência for de fato revertida com o rompimento do suporte a 21.000 coincidindo com o rompimento da reta suporte?
A reta suporte mostra que o "timoneiro" dessa alta de 2002~2004, que é a massa de indivíduos que opera na bovespa, respeitou o rumo da reta, navegando acima da mesma durante 1ano e cinco meses. Quando o analista técnico vir os preços abaixo da reta entenderá que o "timoneiro" está dando um recado para ele de que não está mais respeitando a reta. Bem, depois de uma tendência com 3 movimentos de alta, o "timoneiro" costuma assumir um rumo inverso ao anterior e as chances são que uma tendência de baixa se estabeleça e leve os preços para....?
Bem, uma área bastante estudada da análise técnica diz respeito a essa pergunta e a resposta é que os preços costumam corrigir de 38 a 60% da amplitude da alta anterior. Como estamos analisando a alta iniciada em 2002 então as linhas horizontais azuis dos gráfico1,2,3 e 4 acima mostram onde os preços chegarão se corrigirem 38% da amplitude da alta -  14,700. (Veja a nota do autor em azul acima)
Para os que não acreditam que uma correção dessa monta possa ocorrer vale a pena dar uma olhada no passado recente do Ibobespa, mais precisamente na tendência de 1991~1997 onde as amplitudes do primeiro (91a 92) e segundo (92 a 94) movimentos da tendência de alta, estão marcadas com linhas roxa e preta respectivamente no gráfico 1. Note que após esses movimentos, o mercado sofreu correções de mais de 38% ambas as vezes. Após o terceiro movimento ou onda 5, (95 a 97) o Ibovespa corrigiu muito mais do que 38% porque na verdade a tendência de alta de 6 anos foi revertida. Quando os preços chegaram em 6.000 haviam corrigido pouco mais do que 50% da amplitude da tendência iniciada em 1991 e terminada em 1997.
Sim! Os mercados corrigem de 38 a 62% da amplitude de uma tendência de alta ou de baixa quando essa tendência é revertida e temos todos os ingridientes para esperar que ocorra agora uma correção desse porte no bovespa.
No nosso caso, levando em conta a inclinação da atual tendência de alta e a das correções passadas, acho que em se confirmando a análise acima o mercado poderá sofrer a correção mencionada, nos próximos 3 meses e poderá voltar a subir a partir do próximo semestre. Não se pode descartar entretanto que a correção seja maior do que 38% quando então teríamos que esperar um pouco mais por um novo ciclo de altas.
 
A confirmação da análise acima virá com o rompimento do suporte a 21000 e a quebra da reta resistência. Caso o suporte a 21.000 não seja rompido e os preços rompam a resistência do retângulo acima, essa análise estará anulada ainda que temporariamente e os preços poderiam no mínimo testar novamente o topo principal.
 
Boa sorte!



 

Fausto de Arruda Botelho CFTe; CNPI
Certified Financial Technician – IFTA
Certificado Nacional de Profissionais de Investimento - registrado na CVM
Diretor Geral da Enfoque Informações Financeiras Ltda. (Enfoque).

Em conformidade com as disposições da Instrução CVM nº 388, eu Fausto de Arruda Botelho, analista de investimento responsável pela elaboração deste relatório declaro que:

  • 1. As análises e recomendações refletem única e exclusivamente minhas opiniões pessoais, às quais foram realizadas de forma independente e autônoma, inclusive em relação à (Enfoque).
  • 2. Não mantenho vínculo com qualquer pessoa natural que atue no âmbito das companhias cujos valores mobiliiários foram alvo de análise neste Relatório.
  • 3. A Enfoque não administra fundos, carteiras e clubes de investimentos
  • 4. A Enfoque não possui participação acionária direta ou indireta, igual ou superior a 1% (um por cento) do capital social de quaisquer das companhias cujos valores mobiliários foram alvo de análise neste relatório.
  • 5. A Enfoque não está envolvida  na aquisição , alienação ou intermediação de valores mobiliários objeto de análise neste relatório.
  • 6. Não sou titular, direta ou indiretamente, de valores mobiliários de emissão da(s) companhia(s) objeto da análise neste Relatório, que representem 5% (cinco por cento) ou mais de meu patrimônio pessoal, e não estou envolvido na aquisição, alienação e intermediação de tais valores mobiliários no mercado.
  • 7. Nem eu nem a Enfoque recebemos remuneração por serviços prestados e não temos relações comerciais com qualquer das companhias cujos valores mobiliários foram alvo da análise neste relatório, ou pessoa natural ou pessoa jurídica, fundo ou universalidade de direitos, que atue representando o mesmo interesse desta(s) companhia(s).
  • 8. Minha remuneração não está, atrelada à precificação de quaisquer dos valores mobiliários de emissão da(s) companhia(s) objeto de análise neste Relatório, nem às eventuais receitas provenientes dos negócios e operações financeiras realizadas pela Enfoque com esta(s) companhia(s).